Pedro Bicalho Maia¹
¹Engenheiro Ambiental, MBA em Sustentabilidade, ESG e Inovação.
E-mail: engenheiropedromaia@gmail.com
RESUMO
Praças e parques urbanos são espaços centrais de sociabilidade, memória e construção de vínculos ambientais, ainda que frequentemente tratados como infraestrutura residual em territórios periféricos brasileiros. Este artigo analisa o Projeto Praça Viva, intervenção teatral itinerante realizada em Montes Claros (MG), concebida como dispositivo de ativação territorial e educação ambiental não formal ancorada no espaço público. A pesquisa adota abordagem qualitativa com inspiração fenomenológica, articulando observação direta, diário de campo e registros audiovisuais, com o objetivo de compreender como a estética relacional produz pertencimento e reorganiza percepções socioambientais na cidade. As evidências empíricas indicam que as apresentações geraram formas singulares de apropriação do território: famílias passaram a permanecer nas praças, crianças estabeleceram vínculos afetivos com personagens que personificavam rios e árvores, e adultos revalorizaram o trabalho dos catadores. Essas interações configuraram processos de coprodução simbólica, e não mera recepção passiva, ativando serviços ecossistêmicos culturais nos termos do Millennium Ecosystem Assessment (2005), nos quais o valor ambiental do território emerge da experiência vivida e não apenas da infraestrutura física. Sustenta-se que, em contextos urbanos periféricos, a eficácia da educação ambiental depende de valores relacionais e de narrativas situadas, mais do que de campanhas prescritivas. Ao restituir sentidos sociais às áreas verdes, aos cursos d’água e às cadeias de reciclagem, o Praça Viva opera no campo do direito à cidade e da justiça ambiental. Defende-se, por fim, que sua institucionalização como política pública replicável pode fortalecer a coesão comunitária e a sustentabilidade urbana em cidades médias brasileiras.
Palavras-chave: espaço público; ecologia urbana; educação ambiental não formal; serviços ecossistêmicos culturais; dramaturgia urbana; justiça ambiental.
1. INTRODUÇÃO
As cidades contemporâneas são atravessadas por forças que disputam seus usos e produzem desigualdades no cotidiano. A dinâmica urbana não se resume à materialidade de vias, praças ou edificações: ela se expressa naquilo que Henri Lefebvre (2001) definiu como produção social do espaço. O território urbano, nessa perspectiva, não é mero suporte físico, mas uma obra coletiva continuamente tensionada por práticas, normativas e simbolizações. Quando os espaços públicos perdem sua dimensão relacional, instala-se uma ruptura entre cidade e cidadania, o que converte o comum em fluxo, privatiza a convivência e fragiliza a vida coletiva.
A urbanização periférica brasileira materializa esse fenômeno de maneira aguda. Praças e parques, que deveriam mediar a vida social, tornam-se espaços de passagem, abandono e invisibilidade. A ausência de políticas de convivência e cultura no nível local não é apenas falha programática; funciona também como mecanismo estrutural de segregação. A leitura de Milton Santos (1996) reforça essa perspectiva ao tratar o território usado como totalidade que incorpora memória, identidade e hierarquias. Quando experiências coletivas deixam de ocupar o espaço público, o bairro reduz-se à condição cadastral e a cidade transforma-se em espaço de indiferença.
A crise ambiental urbana emerge como expressão desse mesmo rompimento entre vida social e território. A degradação de córregos, a supressão de vegetação, a violência simbólica sobre áreas verdes e o descarte inadequado de resíduos não resultam apenas de lacunas técnicas. São manifestações materiais de uma sociedade que perdeu a capacidade de significar a natureza no cotidiano urbano. Nesse quadro, abordagens convencionais de educação ambiental, centradas em prescrições ou campanhas, revelam limites estruturais: tentam alterar comportamentos sem reconfigurar relações e buscam produzir consciência sem reorganizar experiências territoriais.
A literatura recente em ecologia urbana e governança socioambiental desloca o foco das campanhas prescritivas para os processos relacionais que produzem cuidado. Ingold (2011) argumenta que habitar é corresponder ao mundo; Ostrom (1990) demonstra que os comuns dependem de regras e valores construídos no território; e o IPBES (2019) evidencia que valores relacionais orientam práticas de cuidado e decisões socioambientais. Essa convergência indica que a sustentabilidade emerge de vínculos e experiências situadas, mais do que de instruções externas. O Millennium Ecosystem Assessment (2005), ao enfatizar os serviços ecossistêmicos culturais, reforça que identidades, memórias e práticas coletivas constituem dimensões fundamentais da relação sociedade-natureza nas cidades.
Esse horizonte teórico converge com o direito à cidade formulado por Lefebvre (2001) e aprofundado por Harvey (2012). O direito à cidade não consiste apenas no acesso ao consumo urbano, mas no poder de produzir os processos de urbanização. Cuidar do rio, valorizar a praça, reconhecer o trabalho do catador e reivindicar o destino dos resíduos configuram práticas políticas que reorganizam o sensível e ampliam o comum. A sustentabilidade urbana, nesse sentido, não reside prioritariamente na infraestrutura, mas na qualidade dos vínculos entre coletividade, natureza e território.
É nesse enquadramento que se insere a presente investigação. O Projeto Praça Viva realiza intervenções teatrais itinerantes em praças e parques de uma cidade média brasileira. A dramaturgia personifica árvores e rios, desloca catadores ao estatuto de educadores urbanos e convoca moradores a experiências de convivência. A intervenção não busca apenas informar sobre problemas ambientais, mas reativar espacialidades, reconstituir sociabilidades e produzir pertencimentos. O espetáculo converte a praça em dispositivo pedagógico e o bairro em arena simbólica, no qual a natureza deixa de ser paisagem e passa a ser vizinha.
O interesse científico emerge dessa inflexão. A bibliografia sobre políticas urbanas frequentemente analisa a requalificação de praças a partir de obras físicas ou equipamentos, mas raramente considera a ativação territorial por meio da estética relacional e da pedagogia comunitária. O campo da educação ambiental, por sua vez, privilegia escolas e campanhas, negligenciando efeitos espaciais como apropriação, permanência e coprodução simbólica. Este artigo tensiona essa fronteira ao examinar a arte pública como forma de uso do espaço urbano que reorganiza subjetividades e produz comportamentos observáveis.
O estudo analisa doze apresentações realizadas entre maio e dezembro em distintos territórios da cidade. Com abordagem qualitativa inspirada na fenomenologia do habitar, mobilizam-se observação participante, cartografia social e relatos espontâneos dos moradores. O foco não reside na contagem absoluta de público, mas na qualidade das apropriações, como permanências, diálogos, deslocamentos e retomada de práticas comunitárias. O espetáculo é objeto empírico apenas na medida em que gera paisagens sociais temporárias, revelando dinâmicas territoriais e possibilidades de reinvenção coletiva.
Com base nesse conjunto, sustenta-se que intervenções culturais de baixa materialidade e alta densidade simbólica podem constituir política urbana de primeira ordem. Ao ativar serviços ecossistêmicos culturais, produzem coesão, confiança e cuidado. Ao transformar catadores em educadores urbanos, ressignificam economias informais e ampliam justiça ambiental. Ao narrar rios e árvores como sujeitos coletivos, deslocam a ecologia urbana do plano técnico para o plano afetivo e territorial. Não se trata de entretenimento ambiental, mas de uma reinvenção do espaço público por meio da estética relacional.
Assim, a questão central mobilizada não é avaliar se espectadores aprenderam conteúdos. O objetivo é compreender como a experiência afetiva produz territorialidade e como essa territorialidade produz transformação ambiental. Essa virada desloca a educação ambiental da lógica informativa para a lógica do direito à cidade. A sustentabilidade urbana, nesse contexto, não é política de gestão; é política de presença. Onde a comunidade se reconhece, o território produz vínculos. Onde há vínculos, há cidade.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1. Espaço urbano, habitar e produção relacional do território
Os estudos urbanos contemporâneos têm deslocado a compreensão de praças e parques de uma condição estritamente utilitária para uma leitura relacional do espaço. Conforme Henri Lefebvre (2001), o espaço urbano não existe como recipiente neutro destinado ao uso coletivo, mas é produzido socialmente por práticas, normas, conflitos e simbolizações. A cidade, nessa perspectiva, não se constitui como simples somatório de objetos materiais, mas como obra coletiva, continuamente tensionada pelas formas de habitar, circular, permanecer e significar o território. A praça deixa de ser apenas um equipamento físico e passa a assumir o estatuto de forma social, inseparável da vida comunitária que a produz e a transforma.
Essa leitura é aprofundada por Doreen Massey (2005), ao compreender o espaço como encontro permanente entre trajetórias heterogêneas. O espaço urbano não antecede as relações sociais; ele emerge delas, configurando-se como evento em constante reconfiguração, no qual temporalidades, materialidades e narrativas coexistem. Nessa abordagem, a praça não é entidade estável, mas campo relacional no qual sentidos são continuamente inscritos, disputados e atualizados pelas interações cotidianas. A espacialidade urbana, portanto, não é cenário passivo da ação social, mas condição ativa da experiência coletiva.
Milton Santos (1996) contribui para essa compreensão ao definir o território como totalidade relacional constituída pela articulação entre técnica, normas e vida cotidiana. O espaço urbano não se reduz à implantação de infraestruturas ou equipamentos; ele incorpora práticas sociais que o tornam inteligível para os sujeitos que o habitam. A identidade territorial não é mero reflexo da paisagem física, mas processo performativo, produzido quando grupos sociais atribuem significado a determinados lugares. Permanências, convivências e reconhecimento mútuo configuram formas de produção espacial tão relevantes quanto intervenções físicas orientadas exclusivamente pela adequação funcional. Em contextos marcados por desigualdades socioespaciais, a ativação simbólica dos espaços públicos opera como dispositivo de visibilidade, pertencimento e qualificação da vida urbana.
A fenomenologia do habitar, conforme desenvolvida por Ingold (2000; 2011), aprofunda esse entendimento ao afirmar que habitar não significa apenas ocupar o ambiente como usuário, mas constituir-se por meio dele. A praça não funciona como cenário neutro das ações humanas; ela integra o próprio processo de existência. Práticas culturais, interações cotidianas e experiências sensíveis produzem território tanto quanto o desenho físico ou a arborização planejada. Quando moradores permanecem na praça após uma intervenção cultural, quando crianças reconhecem árvores e cursos d’água como elementos significativos do bairro ou quando memórias coletivas são narradas no espaço público, não ocorre simples retorno ao lugar, mas a reinauguração de formas de viver e de se relacionar com o território.
Esse processo possui implicações políticas diretas. Para Harvey (2012), reivindicar o direito à cidade significa disputar os modos de produção do urbano, ultrapassando a lógica da distribuição de infraestrutura e alcançando o poder de atribuir sentido aos lugares habitados. O modo como uma comunidade ocupa uma praça, protege suas árvores ou reivindica cuidado com um córrego constitui exercício de cidadania territorial. A sustentabilidade urbana, nesse enquadramento, não se limita à gestão técnica do espaço, mas emerge da qualidade dos vínculos que conectam pessoas, natureza e cidade.
2.2. Valores relacionais, educação ambiental estética e serviços ecossistêmicos culturais
Durante décadas, as políticas de gestão ambiental foram orientadas por uma racionalidade utilitarista, na qual o ambiente era compreendido prioritariamente como recurso e a intervenção territorial guiada pela resolução técnica de problemas. O Millennium Ecosystem Assessment (2005) inaugura uma inflexão importante ao reconhecer que os benefícios ecossistêmicos ultrapassam a provisão material e a regulação ecológica, incorporando dimensões imateriais associadas ao bem-estar subjetivo, à memória coletiva, à coesão social e à construção de identidades. Nesse contexto, emergem os serviços ecossistêmicos culturais, que reposicionam a relação sociedade-natureza no campo da experiência vivida.
Essa inflexão é aprofundada pelo IPBES (2018; 2019), ao introduzir o conceito de contribuições da natureza para as pessoas, enfatizando que as relações humano-ambiente não podem ser reduzidas a tecnicidades externas. Mata ciliar, praça, córrego ou árvore passam a ser compreendidos como elementos de uma economia simbólica e afetiva que participa da formação do cotidiano urbano. A natureza deixa de figurar como objeto a ser administrado e assume o papel de interlocutora da vida coletiva, mediando identidades, práticas e valores.
Chan et al. (2016) consolidam essa transformação epistemológica ao formular a noção de valores relacionais, segundo a qual o cuidado ambiental não nasce exclusivamente do conhecimento racional sobre funções ecológicas, mas da vinculação afetiva que situa os sujeitos em seus territórios. As pessoas não preservam a água apenas por compreender sua importância técnica, mas porque a associam a memórias familiares, pertencimentos locais ou expectativas de futuro. A sustentabilidade, nesse sentido, depende menos de instruções normativas e mais da ativação de vínculos que conectam sujeitos, coletividades e ambientes.
Essa perspectiva dialoga diretamente com abordagens críticas da educação ambiental. Para Freire (1996), ensinar não consiste em transferir conhecimento para um sujeito passivo, mas em criar condições para que os indivíduos produzam sentidos próprios a partir da experiência. Modelos de educação ambiental baseados em slogans e condutas prescritivas tendem a gerar adesões pontuais, mas raramente promovem transformações duradouras. A educação ambiental se consolida quando se torna processo identitário, conforme argumenta Sauvé (2005), permitindo que os indivíduos reconheçam sua própria existência em relação ao meio que habitam.
Nesse contexto, a experiência estética assume papel central como mediação territorial. A estética relacional proposta por Bourriaud (2009) compreende a arte como prática capaz de criar comunidades temporárias, favorecendo interações entre sujeitos e contextos. Um espetáculo teatral realizado em praça pública não se limita ao entretenimento; ele constitui experiência compartilhada que produz linguagem para o cuidado ao oferecer espelhos, e não prescrições. Ao dramatizar conflitos ambientais por meio de personagens, metáforas e narrativas encarnadas, a arte opera como tecnologia social que traduz questões complexas em experiências sensíveis e territorializadas.
A aprendizagem experiencial descrita por Kolb (1984) reforça esse entendimento ao evidenciar que o conhecimento se constrói em ciclos que articulam vivência, reflexão e ação. Intervenções que personificam rios, árvores ou catadores convertem conceitos abstratos em relações concretas, reorganizando percepções e expectativas. Nesse processo, normas sociais associadas ao cuidado e à cooperação tendem a ser internalizadas quando se tornam visíveis no cotidiano, conforme demonstra Cialdini (2006). O território deixa de ser mero meio físico e passa a funcionar como matriz de pertencimento, ativando práticas cooperativas e disposições éticas orientadas ao bem comum.
A ecologia urbana contemporânea reforça essa leitura ao reconhecer que sistemas sociais e ecológicos formam unidades inseparáveis. Alberti et al. (2003) e Grimm et al. (2008) demonstram que cidades não constituem anomalias artificiais dissociadas da natureza, mas ecossistemas socioecológicos complexos nos quais o comportamento humano atua como variável ambiental determinante. Nesse enquadramento, os serviços ecossistêmicos culturais deixam de ser consequências marginais e passam a operar como fundamentos da organização territorial. Praças que acolhem convivência comunitária, promovem encontros intergeracionais e produzem sensação de segurança contribuem diretamente para a valorização da vegetação, para a reapropriação de cursos d’água e para a redução de práticas degradantes.
Assim, a educação ambiental estética, quando ancorada em valores relacionais e na experiência territorial, revela-se capaz de ativar serviços ecossistêmicos culturais e de produzir transformações que ultrapassam a sensibilização momentânea. Ao integrar arte, vivência e território, essas práticas reorganizam a relação entre cidade e natureza, fortalecendo vínculos comunitários e ampliando a compreensão da sustentabilidade como experiência coletiva e situada.
3. METODOLOGIA
A investigação adota abordagem qualitativa orientada pela fenomenologia do habitar e pelos fundamentos da ecologia urbana. O objetivo não consiste em avaliar conteúdos pedagógicos transmitidos ao público, mas compreender como os sujeitos produzem sentidos a partir da experiência territorial desencadeada pela intervenção teatral em praças e parques. Essa escolha dialoga com Ingold (2000; 2011), para quem conhecer o ambiente implica percorrê-lo e experimentá-lo, e com Lefebvre (2001), que interpreta a cidade como produção de vida e não apenas de circulação material. A pesquisa busca observar modos de presença e interações que emergem dos encontros entre moradores e espaço público.
3.1 Observação fenomenológica no espaço urbano
A principal estratégia empírica consistiu em observação participante realizada durante doze intervenções culturais do projeto, executadas em praças e parques de Montes Claros ao longo de 2025. Esses espaços foram compreendidos como territórios de vida cotidiana nos quais se configuram comportamentos, convivências e vínculos. A observação não se limitou à resposta imediata do público à dramaturgia. Foram analisadas aproximações, permanências, conversas, gestos de cuidado com crianças, deslocamentos pelo gramado, busca por sombra sob árvores, reações a personagens que representavam a água, as árvores, os catadores e atitudes após o término das apresentações.
A perspectiva fenomenológica não interpreta o espaço como cenário neutro, mas como elemento ativo da experiência. Seguindo Ingold (2011), o conhecimento emerge da copresença entre corpos e lugares vividos. A observação buscou captar tais relações, entendendo que a territorialidade urbana se expressa tanto nas intenções dos moradores quanto nas formas como ocupam e ressignificam o ambiente.
3.2 Seleção espacial e diversidade de ecossistemas sociais
A seleção dos locais considerou a heterogeneidade socioespacial da cidade e integrou, simultaneamente, um compromisso pedagógico com a democratização territorial da educação ambiental. Por essa razão, foram incluídas praças situadas em regiões centrais, bairros consolidados e áreas periféricas, de modo a garantir que diferentes grupos sociais tivessem acesso às intervenções culturais. A diversidade de territórios não teve caráter comparativo de desempenho. Seu propósito foi assegurar que todas as regiões da cidade fossem alcançadas pelo projeto e, ao mesmo tempo, permitir a observação de como ecossistemas sociais distintos respondem a uma mesma proposta educativa.
Cada praça foi interpretada como ecossistema relacional no qual fluxos humanos, disposição arbórea, ruídos urbanos e padrões de convivência compõem ambientes de sociabilidade. Essa leitura aproxima-se da concepção do IPBES (2019), segundo a qual interações entre natureza e sociedade constituem unidades relacionais e não sistemas separados. A intervenção cultural reposicionou elementos ambientais do território, convertendo árvores, gramados e cursos d’água em mediadores da experiência educativa e ativando formas de pertencimento em contextos urbanos diversos.
3.3 Procedimentos de registro e triangulação
Os dados foram produzidos por meio de três procedimentos complementares.
O primeiro consistiu em observação participante sistemática, realizada durante todo o período das apresentações. O segundo envolveu registros fotográficos e audiovisuais, capturando interações tanto no momento do espetáculo quanto nos intervalos de circulação. O terceiro derivou de relatos espontâneos de moradores e crianças, obtidos em conversas naturais que emergiram no próprio espaço, sem roteiro ou indução.
A triangulação desses procedimentos não buscou convergência quantitativa. Seu propósito foi revelar dimensões distintas do fenômeno. As imagens audiovisuais evidenciaram imersão estética e respostas não verbais. As fotografias registraram composições espaciais que materializaram convivência comunitária, como agrupamentos sob árvores, cadeiras organizadas no gramado ou vizinhos distribuídos ao redor do palco. Os relatos espontâneos permitiram acesso às memórias, significados e expectativas associadas às praças e aos rios. O foco interpretativo recaiu sobre vínculos produzidos na interação entre sujeitos e território.
3.4 Critérios de interpretação e articulação teórica
A interpretação dos dados seguiu quatro princípios analíticos. O primeiro reconhece que a afetividade ambiental antecede a racionalização argumentativa. Quando crianças atribuem características protetoras à árvore figurada no espetáculo, o movimento observado não decorre apenas de assimilação discursiva. Ele expressa incorporação territorial em escala afetiva.
O segundo princípio deriva da compreensão do espaço como produção social. A permanência do público na praça após a intervenção foi considerada reapropriação territorial, conforme discutido por Lefebvre (2001) e Massey (2005).
O terceiro princípio vincula-se às contribuições da natureza para as pessoas conforme IPBES (2019). Sombra, ventilação, sensação de segurança coletiva e interação comunitária foram compreendidas como serviços ecossistêmicos culturais produzidos no contexto da intervenção.
O quarto princípio baseia-se na aprendizagem experiencial descrita por Kolb (1984). A vivência da dramaturgia, seguida por diálogo e ação concreta, constitui ciclo pedagógico que transforma o território em ambiente ativo de aprendizagem.
3.5 Ética de pesquisa e produção responsável dos dados
A pesquisa observou rigor ético em sua condução. Não houve coleta de informações sensíveis nem identificação individualizada dos participantes. A participação ocorreu espontaneamente no espaço público. As imagens que envolvem crianças foram tratadas com cuidado e utilizadas apenas para fins educativos e científicos. Como a metodologia fenomenológica privilegia observação, escuta e reconhecimento da autonomia dos sujeitos, não houve indução, manipulação ou intervenção invasiva. O processo protegeu integralmente o direito à privacidade e à integridade simbólica das comunidades envolvidas.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
As intervenções analisadas ocorreram em Montes Claros, município com aproximadamente 417 mil habitantes (IBGE, 2022) e principal polo regional do norte de Minas Gerais. A cidade apresenta uma configuração socioespacial marcada por forte centralidade de serviços, contrastes territoriais acentuados e expansão urbana contínua em direção a áreas periféricas. Entre esses contrastes destaca-se a distribuição desigual de infraestrutura verde, praças e parques, mais presentes em setores consolidados e menos frequentes em áreas de urbanização recente ou de ocupação irregular. Esse cenário é relevante para compreender a recepção e os efeitos das apresentações teatrais realizadas pelo projeto Praça Viva, pois condiciona tanto as possibilidades de uso quanto as práticas sociais observadas em cada localidade.
A diversidade interna do município se expressa em diferenças morfológicas, funcionais e socioambientais entre os bairros. No Ibituruna, há forte valorização imobiliária e presença de equipamentos de lazer; no Morada do Parque observa-se expansão residencial recente; Santa Lúcia e Monte Sião se caracterizam por dinâmicas de urbanização popular; e o João Botelho apresenta elevado adensamento habitacional. Em áreas periféricas, como a Vila Áurea, praças e áreas verdes assumem papel especialmente relevante no cotidiano dos moradores. Esses contrastes são centrais para a análise, pois cada intervenção dialogou de maneira distinta com os fluxos, densidades, sociabilidades e condições ambientais de sua localidade.
Com o objetivo de situar espacialmente as ações do projeto, o artigo incorpora um mapa com a distribuição das doze apresentações no território de Montes Claros (mapa 1), indicando as praças e parques que receberam as intervenções em diferentes setores da cidade. Mais do que um recurso ilustrativo, essa espacialização cumpre função metodológica ao evidenciar, conforme Lefebvre (2001), que o espaço não opera como pano de fundo neutro, mas como componente ativo da vida social. Ao localizar as apresentações no tecido urbano, o mapa permite compreender como práticas culturais e processos de educação ambiental se articulam à materialidade do território e às formas de uso, permanência e apropriação dos espaços públicos em cada contexto.
A análise revela ainda que as apresentações ocorreram em contextos urbanos muito distintos, envolvendo variações na presença de árvores e áreas sombreadas, na qualidade da infraestrutura local, na acessibilidade, na densidade habitacional, na segurança percebida, na apropriação cotidiana das praças e na existência de iniciativas comunitárias prévias. Esses fatores influenciaram diretamente a adesão do público, as formas de permanência durante os espetáculos e as interações com a dramaturgia. Em praças mais arborizadas, observou-se maior conforto térmico e maior tendência à permanência prolongada; já em locais de adensamento elevado, notaram-se diferentes dinâmicas de circulação e participação. Esses elementos evidenciam a necessidade de considerar as ecologias específicas de cada praça no processo interpretativo.
A partir desse enquadramento territorial, as seções seguintes articulam os resultados empíricos aos referenciais teóricos da geografia urbana, das ecologias relacionais e dos estudos sobre produção do espaço. A discussão está organizada em seis eixos analíticos que, em conjunto, permitem compreender a complexidade das interações produzidas pelo projeto. O primeiro eixo aborda as coreografias urbanas e as práticas espaciais observadas durante as apresentações; o segundo examina ecologias relacionais, afetos e experiências sensoriais; o terceiro analisa as dramaturgias ambientais e os mundos produzidos pelas peças; o quarto discute a presença dos catadores como mediadores ecológicos e agentes de justiça territorial; o quinto identifica as territorialidades emergentes e suas implicações urbanas; e o sexto considera a ética comunitária e as práticas de cuidado que se manifestaram no processo.
Essa organização evidencia que o Praça Viva não se limitou a ocupar praças e parques, mas produziu materialidades, sensibilidades e territorialidades que emergem da convergência entre arte, educação ambiental e vida cotidiana. Ao ativar os espaços públicos como lugares de encontro, aprendizagem e imaginação ecológica, o projeto revelou práticas sociais que iluminam novas formas de habitar a cidade e ampliam a compreensão do papel das praças no tecido urbano de Montes Claros.
Mapa 1: Distribuição das doze apresentações no território de Montes Claros.

Fonte: Elaborado pelo autor (2025).
4.1. Coreografias urbanas e práticas espaciais
A análise das doze apresentações realizadas pelo projeto Praça Viva revelou padrões consistentes de uso, circulação e permanência no espaço público, configurando aquilo que se pode denominar coreografias urbanas. Essa expressão descreve a articulação entre corpos, materialidades, elementos ambientais e expectativas sociais que, combinados, produzem espacialidades dinâmicas em constante transformação. As praças e parques tornaram-se territórios em processo, reorganizados por fluxos, apropriações e arranjos coletivos que emergiram de cada intervenção. Os públicos variaram entre 130 e 800 pessoas, diferença que expressa não apenas a capacidade física dos espaços, mas as relações socioespaciais específicas de cada bairro.
A apresentação inaugural, realizada na Praça Rosa Mística, no bairro São Luiz, tornou evidente como fatores simbólicos e redes sociais condicionam práticas espaciais. Embora a praça esteja situada em área nobre e não seja amplamente utilizada como espaço cotidiano de lazer, recebeu público expressivo em razão de sua natureza emblemática. Após dois meses de divulgação, o evento atraiu docentes universitários dos cursos de Geografia e Teatro da Universidade Estadual de Montes Claros, estudantes, lideranças ambientais, famílias e grande número de crianças, constituindo uma paisagem social diversa e densa. A força mobilizadora desse encontro confirma a proposição de Massey (2005) de que os lugares não se esgotam em seus limites físicos, mas são antes formados pelas relações que neles se entrelaçam e ativam espacialidades próprias.
Nos bairros Santa Lúcia e Monte Sião, marcados por processos de urbanização popular, emergiram coreografias distintas. Nessas localidades, as praças funcionam como extensões da vida cotidiana e já desempenham papel relevante para encontros informais, convivência e brincadeiras. A adesão de aproximadamente 250 pessoas em cada uma dessas apresentações demonstrou que a intervenção teatral não inaugurou sociabilidades, mas ampliou e ressignificou práticas preexistentes. A infraestrutura disponibilizada pelo projeto — cadeiras, bancos temáticos plotados com ícones dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e almofadas distribuídas pelo espaço — contribuiu para organizar zonas de permanência e favorecer o encontro intergeracional. Esses arranjos reforçam a leitura de Jacobs (2011), para quem a vitalidade urbana decorre da multiplicidade de usos e da presença contínua de pessoas que, por meio de interações cotidianas, constroem ambientes seguros, conviviais e socialmente significativos.
No Parque Sapucaia, localizado na extremidade da cidade e fora das rotas intensas de circulação urbana, a dinâmica observada foi singular. Embora não seja espaço de grande fluxo cotidiano, o parque recebeu cerca de 800 pessoas durante a apresentação da peça “Daqui Não Saio, Daqui Ninguém Me Tira”, realizada no Dia da Árvore. A convergência entre data simbólica, narrativa dramatúrgica e mobilização comunitária materializa o que Tuan (1980) denomina topofilia, vínculo afetivo que emerge quando experiências sensíveis se articulam a valores culturais e memórias sociais. A cena também corrobora a proposição de Massey (2005), segundo a qual os lugares resultam de múltiplas temporalidades e deslocamentos que se entrelaçam nas práticas que os constituem. Nesse episódio, o parque transformou-se em território de pertencimento ambiental e celebração coletiva.
O episódio ocorrido no bairro Independência revela ainda mais claramente a força relacional ativada pelas intervenções. Poucos minutos após o início do espetáculo, uma chuva intensa, com duração aproximada de sete minutos, dispersou temporariamente o público, que buscou abrigo nas proximidades. Assim que a chuva cessou, crianças, jovens e adultos retornaram espontaneamente ao local e solicitaram a continuidade da apresentação. Esse retorno coletivo indica forte vínculo com o projeto e evidencia confiança territorial e pertencimento simbólico. A persistência do acontecimento mesmo após a interrupção confirma a interpretação de Casey (1996), para quem o lugar é um evento que se mantém pela força das relações que o sustentam. Também reforça a argumentação de Jacobs (2011), segundo a qual práticas de convivência, reconhecimento mútuo e permanência constituem o núcleo da vitalidade urbana.
Outro elemento determinante refere-se ao período que antecedia cada apresentação. Famílias e grupos que chegavam mais cedo eram recebidos pelos personagens Verdevaldo, engenheiro ambiental defensor das áreas verdes urbanas, e Aqualina, bióloga guardiã das águas, além dos mascotes Pequi e Jatobá, concebidos como recursos pedagógicos para estimular valores relacionados à sustentabilidade, ao cuidado com a fauna urbana e à proteção dos recursos naturais. Esses personagens interagiam diretamente com o público, conversando, brincando com as crianças e introduzindo temas ambientais enquanto a equipe técnica preparava o palco. Essa etapa prévia compunha um processo de construção de ambiência no qual o espaço se tornava progressivamente território compartilhado, reiterando a importância da interação casual e do uso continuado destacada por Jacobs (2011).
A própria ambientação realizada pelo projeto desempenhou papel decisivo na conformação dessas coreografias. Antes mesmo do início dos espetáculos, o espaço era transformado em uma cena preparada para acolher o público: o palco continha elementos visuais alinhados à temática ambiental, banners educativos distribuídos pela praça apresentavam informações sobre recursos hídricos, vegetação urbana, reciclagem e desafios socioambientais, e o mobiliário pedagógico organizado pelo projeto estruturava zonas de permanência e favorecia fluxos de circulação. Essa transformação confirma a perspectiva de Ingold (2011), segundo a qual habitar não consiste apenas em ocupar um lugar, mas em corresponder a ele continuamente por meio de práticas que entrelaçam corpo, materialidade e ambiente.
Em síntese, as intervenções do Praça Viva não apenas reuniram público, mas redefiniram a forma como os espaços públicos foram vivenciados e percebidos. Cada território produziu arranjos próprios, resultado da interação entre características ambientais, infraestrutura disponibilizada, dinâmicas sociais e dramaturgia. Essas coreografias urbanas evidenciam que a apropriação do espaço é fenômeno relacional produzido no encontro entre corpos, ambientes e narrativas. Assim, as ações teatrais ampliaram as possibilidades de significado do espaço público e fortaleceram sua vocação como território de convivência, aprendizagem e experiência ambiental.
4.2. Ecologias relacionais, afetos e experiência sensorial
As experiências produzidas ao longo das apresentações do Praça Viva evidenciaram que a relação entre público, dramaturgia e espaço ultrapassou a fruição estética. Configurou-se um campo ampliado de vínculos afetivos, perceptivos e éticos que dialoga diretamente com a noção de valores relacionais formulada por Chan et al. (2016) e aprofundada pelo IPBES (2019). Esses valores dizem respeito a formas de significação baseadas no cuidado, na responsabilidade e no pertencimento a coletividades humanas e não humanas. No contexto do projeto, tais valores não emergiram como abstração, mas como práticas vividas, moduladas pela presença do público nas praças, pelas interações com a dramaturgia e pelo contato direto com personagens ambientais que funcionavam como mediadores de sentido.
A constituição desses vínculos esteve profundamente associada à dimensão sensorial da ocupação dos espaços. Permanências em áreas sombreadas, observação de córregos ou espelhos d’água, variações de luminosidade ao entardecer, texturas do solo e sons da vizinhança produziram um envolvimento corporal que remete à fenomenologia do habitar proposta por Ingold (2011). Para o autor, habitar não é um ato de uso, mas de correspondência contínua com o ambiente, marcada por fluxos materiais e perceptivos que moldam a experiência. No Praça Viva, essa correspondência se concretizava quando crianças se aproximavam das árvores mencionadas na dramaturgia, quando adultos comentavam a importância da sombra ou quando famílias reconheciam elementos da paisagem que apareciam reconfigurados na narrativa cênica.
As dramaturgias também desempenharam papel decisivo na ativação simbólica do território. A peça “A Voz das Águas”, ao personificar rios e nascentes urbanas, convidou o público a observar com outros olhos ambientes frequentemente invisibilizados no cotidiano. “Daqui Não Saio, Daqui Ninguém Me Tira”, ao tematizar a importância das árvores, reforçou vínculos emocionais com a vegetação urbana. Esses deslocamentos perceptivos dialogam com a leitura de Tuan (1980), para quem sentimentos de afeição pelo lugar emergem quando o espaço é inscrito em narrativas que mobilizam memória, imaginação e sensibilidade. Ao reconectar moradores às águas e às árvores da cidade, as peças ativaram serviços ecossistêmicos culturais (MEA, 2005; IPBES, 2019), entendidos como benefícios imateriais relacionados à identidade, ao bem-estar e à coesão comunitária.
A participação ativa do público intensificou ainda mais tais processos. Crianças e adultos convidados a integrar determinadas cenas, dialogar com personagens ou repetir gestos tornavam-se coautores do acontecimento cênico. A aprendizagem emergia da experiência compartilhada, aproximando-se da perspectiva fenomenológica descrita por Ingold (2011), segundo a qual conhecimento é gerado na ação conjunta. Essa coparticipação ativava valores relacionais ao estimular práticas de responsabilidade coletiva, pertencimento e cuidado tanto com as temáticas ambientais quanto com o próprio espaço público convertido em território de convivência.
Os personagens Verdevaldo e Aqualina, juntamente com os mascotes Pequi e Jatobá, atuaram como mediadores entre o público e as dimensões éticas da narrativa. Sua presença antes das apresentações criava ambiente de acolhimento e ludicidade, aproximando temas como proteção das águas, valorização das áreas verdes, reciclagem e respeito à fauna urbana de forma leve e acessível. Essa mediação afetiva dialoga com a proposta de Descola (2013), segundo a qual relações entre humanos e não humanos podem ser pensadas a partir de ontologias relacionais que enfatizam interdependência e coabitação. No Praça Viva, tais ontologias eram performadas simultaneamente na dramaturgia e nas interações cotidianas estabelecidas nos espaços reconfigurados para aprendizagem e convivência.
A estrutura cenográfica e pedagógica do projeto também reforçou esses efeitos. Banners educativos distribuídos pelo espaço, bancos com ícones dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, almofadas e organização espacial cuidadosa constituíam uma paisagem mediada nos termos de Berque (1998). Esses dispositivos atuavam como guias perceptivos que orientavam o olhar, organizavam a experiência e acrescentavam camadas de significado ao território, integrando arte, educação e presença sensível.
Os afetos mobilizados durante as apresentações manifestaram-se de formas variadas. Em alguns locais, observaram-se momentos de silêncio coletivo durante cenas de maior carga emocional relacionadas aos rios e às árvores; em outros, risos, comentários espontâneos e diálogos entre vizinhos revelavam a construção compartilhada da experiência. Esses efeitos demonstram que a participação não ocorreu apenas em nível individual, mas produziu uma dinâmica comunitária de percepção e ressignificação do espaço. Como argumenta Casey (1996), lugares são acontecimentos corporificados, sustentados por vivências que os transformam continuamente. Nas intervenções, essa transformação tornou-se visível quando moradores passaram a reconhecer áreas verdes como patrimônio comum, a valorizar elementos naturais das praças ou a comentar sobre a importância dos rios urbanos.
Assim, as ecologias relacionais observadas nas apresentações demonstram que o projeto não se limitou à transmissão de conteúdos ambientais. Produziu modos de pertencimento que se inscrevem no campo das experiências sensíveis, articulando corpo, afeto, narrativa e território. Ao ativar valores relacionais, o Praça Viva contribuiu para transformar o modo como os participantes percebem e habitam a cidade. Trata-se de uma pedagogia do viver urbano que opera no encontro, no sentir e no compartilhar, reafirmando a arte como mediadora de vínculos éticos entre pessoas, paisagens e ecossistemas urbanos.
4.3. Dramaturgias ambientais e produção de mundos
As três peças que compuseram o circuito do Praça Viva (A Começar de Mim e Agora, Daqui Não Saio, Daqui Ninguém Me Tira e A Voz das Águas) atuaram como dispositivos de produção de mundos no sentido apresentado por Tsing (2015) e Haraway (2016). As dramaturgias não se limitaram a transmitir conteúdos ambientais; instauraram modos situados de relação em que árvores, rios, sombras, ventos, animais e estruturas urbanas passaram a operar como agentes narrativos, capazes de reorganizar a ambiência das praças e intensificar vínculos afetivos com o território. Cada peça ativou formas específicas de perceber, sentir e habitar os espaços públicos, contribuindo para que as praças se tornassem territórios de disputas simbólicas, imaginação coletiva e aprendizagem ambiental.
A Começar de Mim e Agora aborda a relação entre práticas individuais e impactos coletivos e convoca o público a refletir sobre responsabilidade ética. A frase “Se cada gesto meu alcança o mundo, o que faço hoje, aqui, começa em mim, mas ecoa em todos vocês” exemplifica uma noção de corresponsividade próxima àquela descrita por Ingold (2011), segundo a qual viver implica responder continuamente aos fluxos materiais e sensíveis que constituem o ambiente. Ao dramatizar ações ordinárias ligadas ao desperdício, ao manejo de resíduos e às relações de cuidado, a peça reinsere o cotidiano urbano em uma ecologia ampliada, orientada por valores relacionais que Chan et al. (2016) identificam como fundamentos para práticas de pertencimento e responsabilidade socioambiental.
Daqui Não Saio, Daqui Ninguém Me Tira aprofunda esse deslocamento ao transformar árvores em personagens dotadas de memória e agência. Passagens como “Eu estava aqui antes de vocês. Cresci junto com esta cidade, mas agora querem me arrancar como se eu não tivesse história” dramatizam disputas reais relacionadas ao corte de árvores e à redução dos espaços verdes urbanos. Ao atribuir voz aos seres vegetais, a dramaturgia dialoga com Descola (2013), que reconhece ontologias nas quais humanos e não humanos participam de uma mesma trama de existência. A peça também suscita topofilias no sentido proposto por Tuan (1980), pois ativa sentimentos de vínculo afetivo com as árvores e com a história das praças, especialmente quando apresentada no Dia da Árvore no Parque Sapucaia, ocasião em que o engajamento comunitário se intensificou de forma notável.
A Voz das Águas personifica rios, nascentes e fluxos hidrológicos urbanos por meio da personagem Água Doce, que afirma: “Eu corro pela cidade, mas nem sempre me deixam seguir. Às vezes me sujam, às vezes me esquecem. Mas eu sustento a vida de todos vocês.” Essa cena constitui um “parlamento das coisas”, tal como descrito por Latour (2004), no qual entidades normalmente ausentes da vida política são reintegradas como participantes ativos da trama pública. A dramaturgia torna visíveis conflitos relacionados à contaminação, à impermeabilização do solo e à negligência das águas e, ao mesmo tempo, transforma a água em figura próxima, sensível e vulnerável. A participação intensa das crianças, que respondiam às falas da Água Doce e repetiam seus gestos, reforça a aprendizagem experiencial descrita por Kolb (1984) e contribui para a construção de valores relacionais vinculados ao cuidado, à proteção e à convivência com os ecossistemas.
As dramaturgias produziram efeitos que ultrapassaram o palco e se estenderam ao território. Árvores, sombras, gramados, córregos canalizados, sonoridades e ventos tornaram-se componentes sensíveis da cena pela contiguidade espacial, o que revela o processo de “tornar-se com” proposto por Haraway (2016). A interação entre atores, espectadores, elementos naturais e imprevistos também reforçou essa dinâmica. O episódio da chuva no bairro Independência exemplifica esse processo: mesmo após o aguaceiro interromper temporariamente a apresentação, o público retornou espontaneamente e solicitou que o espetáculo continuasse. Essa persistência coletiva confirma a leitura de Casey (1996), segundo a qual o lugar é um acontecimento que se sustenta pela força das relações que o constituem.
As peças igualmente atuaram como dispositivos de imaginação urbana ao dramatizar tensões socioambientais contemporâneas, como o desaparecimento de áreas verdes, a fragilidade das fontes de água e os desdobramentos das decisões individuais e coletivas. Esses futuros não foram apresentados como abstrações utópicas, mas como prolongamentos diretos das ações encenadas, configurando aquilo que Tsing (2015) denomina mundos em gestação. Relatos espontâneos de moradores após as apresentações indicam que a dramaturgia reconfigurou percepções cotidianas sobre ruas, parques, sombras e cursos d’água presentes na cidade.
Em síntese, as dramaturgias ambientais do Praça Viva operaram como práticas de criação de mundos urbanos mais sensíveis, éticos e plurais. Ao reconhecer a agência de árvores e águas, envolver crianças e adultos como coautores do acontecimento cênico e transformar praças em espaços cosmopolíticos de cuidado e imaginação, o projeto ampliou os modos de pertencimento ao território e consolidou a arte como mediadora de vínculos ecológicos e comunitários na vida urbana.
4.4. Catadores como mediadores ecológicos e justiça territorial
A centralidade dos catadores no projeto Praça Viva tornou-se particularmente evidente na peça A Começar de Mim e Agora, criada para dialogar diretamente com a temática da coleta seletiva, com o ciclo dos resíduos e com a valorização dos trabalhadores que sustentam a economia popular da reciclagem. A dramaturgia, que apresenta como personagens uma catadora, um coletor da limpeza pública e uma estudante filha de catadora, estabelece um campo de reconhecimento raramente contemplado pelas políticas urbanas: o entendimento de que os catadores são mediadores ecológicos, portadores de saberes operacionais e territoriais indispensáveis ao funcionamento do metabolismo urbano. Essa escolha dramatúrgica não apenas confere visibilidade a esses trabalhadores, mas atribui agência e dignidade às suas práticas, aproximando o público de experiências cotidianas frequentemente invisibilizadas.
Essa dimensão ganha densidade adicional quando se considera que as cinco primeiras apresentações dessa peça ocorreram em territórios onde atuam associações de catadores vinculadas ao programa municipal Recicla aos Montes, iniciativa estruturada para ampliar a coleta seletiva por meio da inclusão socioambiental dessas organizações. Cada intervenção foi realizada em praça situada no raio de influência de uma associação participante, criando correspondência espacial entre dramaturgia e território. O público assistia à peça no exato espaço onde o trabalho dos catadores se materializava diariamente, o que reforçava a inteligibilidade da narrativa e consolidava o reconhecimento simbólico desses trabalhadores como agentes estruturantes da sustentabilidade urbana.
A dramaturgia incorpora explicitamente o trabalho dos catadores como componente ético e pedagógico. Em uma das cenas centrais, o personagem do catador, uniformizado, explica à personagem Joana o valor econômico e social dos resíduos recicláveis. Seu diálogo, registrado no roteiro oficial, afirma: “Resíduos recicláveis secos geram renda. Isto é sustento para muitas famílias. Pago aluguel, faço compras e outras necessidades.” Essa fala opera como pedagogia do reconhecimento ao revelar que o trabalho com resíduos é atividade econômica vital, responsável pela reprodução social de inúmeras famílias. Tal abordagem dialoga diretamente com a concepção de justiça ambiental apresentada por Schlosberg (2007), ao articular redistribuição simbólica, reconhecimento e participação de grupos historicamente marginalizados.
Ao mesmo tempo, a peça provoca deslocamentos importantes na percepção espacial do público. Crianças e adultos passam a compreender que a paisagem urbana inclui sujeitos cujas práticas sustentam os fluxos ambientais da cidade. O espaço da praça, usualmente associado ao lazer ou circulação, é reconfigurado como território de atuação dos catadores, incorporando camadas de uso que frequentemente passam despercebidas. Essa mudança de leitura espacial é coerente com a noção de multiterritorialidade desenvolvida por Haesbaert (2004), que ressalta a coexistência de múltiplas formas de uso, apropriação e pertencimento no espaço urbano, inclusive aquelas vinculadas ao trabalho subalternizado e à economia popular.
A articulação entre dramaturgia e território aproxima o projeto Praça Viva da perspectiva da cidadania insurgente proposta por Holston (2013). Segundo o autor, práticas que emergem das margens do urbano podem redefinir os contornos da cidadania ao reivindicar reconhecimento, legitimidade e inclusão. Na peça, o catador assume papel de educador ambiental e sujeito explicativo da cidade, posição que subverte assimetrias históricas e reafirma sua centralidade social e ecológica. O ato de ensinar em cena, diante de um público amplo e diversificado, constitui gesto performativo de cidadania e reposiciona o catador no imaginário urbano.
Essa dimensão política é reforçada pela integração direta do projeto com as associações locais de catadores, mencionadas publicamente como parte da rede real de solução ambiental da cidade. A dramaturgia evidencia que a coleta seletiva só se completa com o trabalho organizado dessas associações, apontando para um dos desafios centrais da gestão de resíduos no Brasil: o reconhecimento institucional dos sujeitos que efetivamente sustentam essa cadeia. Essa vinculação entre narrativa cênica e políticas públicas contribui para ampliar a compreensão do público sobre o papel coletivo desses trabalhadores e para fortalecer sua legitimidade social.
Em síntese, ao reconhecer os catadores como mediadores ecológicos e agentes de justiça territorial, o Praça Viva ampliou significativamente o alcance de sua proposta de educação ambiental. A dramaturgia e as interações construídas durante o projeto permitiram que a população compreendesse que sustentabilidade urbana é indissociável do reconhecimento social, político e econômico daqueles que cuidam cotidianamente da cidade. Esse reconhecimento, ainda que produzido em campo simbólico e performativo, contribui para fortalecer processos de cidadania, aprofundar a consciência coletiva sobre o metabolismo urbano e fomentar formas mais inclusivas, solidárias e justas de convivência nos espaços públicos.
4.5. Territorialidades emergentes e implicações urbanas
As apresentações do Praça Viva produziram territorialidades emergentes que reconfiguraram, ainda que temporariamente, o modo como praças e parques foram percebidos, ocupados e vivenciados pela população. Tais territorialidades não derivaram apenas da presença física do público, mas das interações entre corpos, dramaturgia, elementos naturais, dispositivos pedagógicos e significados compartilhados no decorrer das atividades. Conforme Lefebvre (2001), o espaço urbano é obra social continuamente recriada pelas práticas que nele se desenvolvem. No contexto do projeto, cada apresentação transformou a praça em território vivo, produzido pela convergência entre arte, educação ambiental e vida cotidiana.
Essas territorialidades podem ser compreendidas como espacialidades relacionais, conforme formula Massey (2005), pois não dependem de fronteiras fixas, mas de encontros, movimentos, afetos e percepções que se atualizam na experiência. Praças que, em dias comuns, apresentavam fluxos dispersos, usos pontuais ou baixa permanência, tornaram-se, durante as intervenções, cenários de convivência prolongada, conversas espontâneas, reconhecimento entre vizinhos e apreciação estética. Esse deslocamento não se explica apenas pela ocorrência de um evento cultural, mas pela articulação complexa entre dramaturgia ambiental, presença dos personagens, ambientação pedagógica e vínculos afetivos mobilizados ao longo da experiência. Trata-se de movimento coerente com a noção de topofilia discutida por Tuan (1980), na qual o apego ao lugar emerge de vivências sensíveis e compartilhadas.
A presença simbólica das associações de catadores, especialmente durante as apresentações de A Começar de Mim e Agora, ampliou ainda mais essa transformação. Para muitos participantes, as praças passaram a ser percebidas não apenas como espaços de lazer, mas como territórios de trabalho, circulação e cuidado de agentes que sustentam o metabolismo urbano. Esse processo se aproxima da multiterritorialidade descrita por Haesbaert (2004), ao evidenciar que diferentes grupos atribuem sentidos diversos a um mesmo espaço. Ao inscrever as associações de catadores no imaginário territorial do público, o projeto trouxe à superfície dinâmicas socioambientais frequentemente invisíveis e expandiu a leitura coletiva da cidade.
Transformações significativas também foram observadas nos comportamentos do público. Famílias sentavam no chão e nas almofadas distribuídas pelo projeto, crianças percorriam o espaço identificando elementos do ambiente mencionados na dramaturgia, jovens circulavam entre os banners educativos e adultos permaneciam na praça após o encerramento das apresentações, conversando ou observando o entorno. Esse prolongamento da presença confirma a fenomenologia do habitar proposta por Ingold (2011), segundo a qual habitar significa corresponder ativamente ao ambiente, construindo relações que vão além da mera função utilitária do espaço.
As territorialidades emergentes observadas durante o projeto tiveram implicações diretas para a leitura da paisagem urbana de Montes Claros. A intervenção estimulou o público a reconhecer as praças como espaços potenciais de educação ambiental, cultura e convivência comunitária. Essa ressignificação contrasta com processos de precarização e abandono que atingem muitos espaços públicos no Brasil e reforça a necessidade de políticas urbanas comprometidas com o fortalecimento de vínculos cotidianos entre população e território. Ao ativar as praças como lugares de encontro, diálogo e imaginação ecológica, o projeto demonstrou que a vitalidade urbana depende menos de obras físicas e mais da presença ativa das pessoas na vida pública.
Sob a perspectiva política, essas territorialidades dialogam com o conceito de uso do território formulado por Santos e Silveira (2001), que enfatizam que o território é definido pelas práticas que o operam e lhe conferem sentido. O Praça Viva acionou dimensões culturais, ambientais e comunitárias do espaço urbano, evidenciando que políticas de educação ambiental e de cultura podem desempenhar papel estruturante na construção de cidades mais democráticas, sensíveis e sustentáveis. Essa ativação aproxima o projeto de uma pedagogia territorial, capaz de reorganizar percepções, fortalecer laços sociais e ampliar o reconhecimento de ecossistemas urbanos como bens coletivos.
Em síntese, as territorialidades emergentes identificadas no Praça Viva mostram que intervenções artísticas de caráter ambiental são capazes de reorganizar espacialidades, produzir novos sentidos de pertencimento e revelar camadas pouco visíveis do território urbano. Ainda que efêmeras, essas transformações deixam rastros simbólicos e afetivos que influenciam práticas cotidianas e ampliam a compreensão do papel das praças na vida da cidade. O projeto evidencia que o espaço público é campo privilegiado para a construção do comum e para a produção de futuros urbanos mais justos, compartilhados e sustentáveis.
4.6. Ética comunitária, cuidado e futuro urbano
As experiências produzidas pelo Praça Viva evidenciam a emergência de uma ética comunitária orientada pelo cuidado, compreendido não como valor abstrato, mas como prática concreta que se manifesta nos modos como pessoas, personagens, territórios e temas ambientais se entrelaçam na ação coletiva. Essa ética se expressa no envolvimento do público com a dramaturgia, na atenção dedicada aos espaços das praças, na valorização do trabalho das associações de catadores e no reconhecimento da interdependência entre cidade, natureza e vida cotidiana. Trata-se de uma disposição relacional que se aproxima do conceito de topofilia formulado por Tuan (1980), entendido como vínculo afetivo que amplia a responsabilidade pelo lugar e incentiva práticas de pertencimento.
Essa ética do cuidado pode ser interpretada à luz da ecologia relacional de Ingold (2011), segundo a qual habitar significa corresponder ao mundo, respondendo aos seus fluxos, ritmos e necessidades. Durante o projeto, esse modo de corresponder tornou-se visível em gestos simples, porém densos de significado: crianças recolhendo pequenos resíduos antes do início das apresentações, adultos explicando às crianças a importância da separação de recicláveis, famílias permanecendo na praça para discutir os temas encenados e moradores expressando orgulho ao ver seu bairro como palco de uma atividade cultural. Esses comportamentos demonstram que o cuidado emerge como prática territorial, reforçando a compreensão da praça como espaço comum e da cidade como responsabilidade coletiva.
A presença simbólica das associações de catadores reforçou essa ética ao incorporar dimensões de justiça social e ambiental ao repertório comunitário. O reconhecimento público do trabalho desses agentes, aliado à valorização de seus territórios de atuação, combate formas de invisibilização historicamente associadas à economia popular da reciclagem. Quando crianças aplaudem a personagem catadora, quando famílias dialogam sobre a importância da coleta seletiva ou quando moradores relacionam limpeza urbana e dignidade do trabalho, configuram-se valores relacionais conforme descrito por Chan et al. (2016). Esses valores fortalecem compromissos de reciprocidade e apoio mútuo que são fundamentais para a construção de cidades mais justas, cooperativas e ambientalmente responsáveis.
Sob a perspectiva do planejamento urbano, a ética comunitária observada nas apresentações aponta para a necessidade de políticas que reconheçam o espaço público como território de convivência, aprendizagem e imaginação coletiva. A cidade não pode ser reduzida a infraestrutura; ela é também narrativa, vínculo e possibilidade. Haraway (2016) destaca que futuros solidários emergem quando humanos e não humanos passam a compor mundos comuns. No Praça Viva, essa composição tornou-se evidente na interseção entre personagens ficcionais, elementos ambientais reais, trabalho artístico, presença das associações de catadores e participação ativa do público, configurando ecologias relacionais capazes de projetar futuros urbanos mais sensíveis e cooperativos.
Essa ética coletiva também dialoga com a ecologia política do cuidado apresentada por autores latino-americanos como Leff (2021), que enfatizam a importância de práticas comunitárias orientadas ao bem comum em contextos marcados por desigualdades socioambientais. Ao realizar apresentações em regiões centrais, bairros consolidados e áreas periféricas, o projeto rompe assimetrias na oferta de equipamentos culturais e amplia o acesso territorial às práticas de educação ambiental. Esse movimento contribui para um horizonte de justiça territorial no qual o cuidado com a cidade se torna direito e responsabilidade distribuídos.
Em síntese, o Praça Viva demonstra que intervenções culturais de caráter ambiental não apenas transformam a ambiência das praças durante a atividade, mas também produzem disposições éticas que perduram no imaginário e nas práticas cotidianas dos moradores. A ética comunitária observada nas apresentações amplia a compreensão de que o futuro urbano depende de formas de cuidado que integrem afeto, conhecimento, reconhecimento social e responsabilidade compartilhada. Se a cidade é continuamente produzida pelos encontros que nela se realizam, como afirma Lefebvre (2001), então o Praça Viva mostra que esses encontros podem gerar futuros mais democráticos, sensíveis e ambientalmente comprometidos.
A partir dessa perspectiva, o projeto deixa de ser apenas intervenção cultural e passa a constituir um laboratório de futuros urbanos, no qual cuidado, solidariedade e imaginação coletiva se tornam fundamentos para a construção de cidades mais inclusivas, sustentáveis e plurais.
- CONCLUSÕES
Os resultados evidenciam que práticas de educação ambiental realizadas em espaços públicos, quando mediadas por dramaturgia e orientadas por valores relacionais, produzem efeitos que ultrapassam a sensibilização momentânea. A dimensão estética não atua como adorno lúdico, mas como mecanismo cognitivo, afetivo e social capaz de ativar serviços ecossistêmicos culturais, nos termos do Millennium Ecosystem Assessment (2005) e do IPBES (2019). Esses serviços se manifestam na formação de vínculos entre moradores e território, na revalorização da natureza como entidade comunitária e no reconhecimento de sujeitos historicamente invisibilizados no metabolismo urbano, como os catadores. Tais efeitos emergem da vivência compartilhada e não da transmissão unidirecional de conteúdos, em consonância com abordagens fenomenológicas do habitar e com concepções contemporâneas de ecologia urbana.
A análise demonstra que o espaço urbano não opera apenas como infraestrutura funcional, mas como ecossistema socioecológico vivo, continuamente produzido por práticas de convivência, percepções e usos. Praças e parques tornam-se ambientes formadores quando a população os reconhece como territórios de pertencimento e não apenas como equipamentos. Ao deslocar o processo educativo para o território, o Praça Viva reorganiza a hierarquia entre cidade e pedagogia: a praça deixa de ser lugar de passagem e converte-se em dispositivo de cidadania, instância de construção de vínculos e mediação comunitária. Essa dinâmica dialoga com a noção de espaço como produção social proposta por Lefebvre (2001) e com interpretações de Massey (2005) sobre espacialidades relacionais.
As evidências sugerem que intervenções ambientais baseadas exclusivamente em campanhas prescritivas ou em dispositivos urbanos isolados são insuficientes para produzir engajamento duradouro. Mudanças de comportamento emergem quando o conhecimento é inscrito em práticas culturais e incorporado por meio de experiências sensíveis, como quando crianças interagem com personagens que personificam rios e árvores, quando famílias reconhecem catadores como agentes essenciais da ecologia urbana ou quando a praça é reconfigurada como ambiente de convivência e reflexão. A educação ambiental, nessa perspectiva, não incide sobre indivíduos isolados, mas sobre a cultura compartilhada de um território, reposicionando a sustentabilidade como experiência coletiva.
Diante disso, a formulação de políticas municipais de educação ambiental deve considerar a dimensão estética e simbólica como componente estruturante e não acessório. Intervenções itinerantes, continuidade temporal e presença territorial ampliam a capilaridade das ações, fortalecem vínculos comunitários e ativam a coprodução social do espaço. Em cidades médias brasileiras, onde praças e parques frequentemente operam como infraestrutura latente, iniciativas como o Praça Viva demonstram que esses espaços possuem alto potencial pedagógico mesmo sem reformas físicas, quando são ativados por práticas culturais capazes de reorganizar percepções e promover convivência.
Os resultados indicam que iniciativas de baixa materialidade e alta densidade simbólica constituem alternativa eficiente a modelos urbanos centrados exclusivamente em obras e equipamentos. A arte pública, quando operada como tecnologia social de ativação territorial, fortalece coesão comunitária, amplia justiça ambiental ao reconhecer sujeitos e territórios negligenciados e reconfigura elementos naturais da cidade como componentes de valor coletivo. Tais intervenções não oferecem entretenimento, mas instituem processos de produção de sentido social que transformam o espaço público em arena de imaginação e ação cidadã.
Assim, a institucionalização de iniciativas com características semelhantes ao Praça Viva como política pública permanente permitiria que municípios convertessem educação ambiental, cultura e gestão territorial em práticas integradas de cidadania. Em contextos urbanos marcados por desigualdades socioambientais e déficit de políticas de sociabilidade, iniciativas dessa natureza demonstram capacidade concreta de reorganizar a vida coletiva sem demandar grandes investimentos materiais, operando no que abordagens contemporâneas reconhecem como infraestrutura simbólica: o conjunto de práticas, afetos e narrativas capazes de sustentar futuros urbanos mais justos, sensíveis e compartilhados.
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